A imbecilidade consiste em crer que compreendemos aquilo que não compreendemos

René Magritte é um dos principais artistas surrealistas belgas e um dos meus quadros preferidos dele é a imagem de um cachimbo com a frase “Ceci n'est pas une pipe",  que significa,  "Isto não é um cachimbo". Ao meu ver, é um quadro repleto de filosofia e faz com que você pense além do óbvio. Se mostram um quadro com o desenho de um cachimbo para qualquer pessoa, e perguntam o que eles estão vendo no quadro, logo dirão que é um cachimbo, mas quando falam que a única resposta que não podem dar é exatamente essa, as pessoas se esforçam para enxergar algo além do óbvio, algo que talvez esteja oculto na imagem, mas, na maior parte das vezes, desistem ou insistem que é sim um cachimbo. Quando René é questionado sobre o quadro, sempre usa a frase “a imbecilidade consiste em crer que compreendemos aquilo que não compreendemos”, que na minha visão pode ser similar a famosa frase de Sócrates “Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa”. Na minha interpretação a frase de René nos revela que o atraso da humanidade está no homem achar que sabe de alguma coisa, pois, no momento em que tornamos nosso conhecimento concreto e imutável,  perdemos a oportunidade de conhecer, evoluir e aprimorar. As pessoas que “acham que sabem” param de procurar, congelam no tempo e deixam de evoluir pois consideram que sabem o bastante e experimentam uma fase de satisfação plena, o perigo dessa fase é bem representada por Nick Farewell em seu livro GO, quando escreveu a frase “Não pense que o poder criativo vem da alegria. Alegria é sensação de plenitude. Você não poderá fazer nada com isso. Agora, a tristeza, o desespero e a miséria, isso sim é a verdadeira fonte de inspiração”. No momento em que você entende que não é suficiente, que existe mais, que o conhecimento vai além e que por mais que você viva milhões de anos ainda existirá coisas das quais você não sabe, isso te deixa um passo à frente das pessoas que insistem em viver de olhos fechado, como diria René, exatamente onde mora a imbecilidade. Sobre o quadro de René, apesar de todo o paradoxo filosófico que ele me trás, sua interpretação é individual e a minha é exatamente essa, o recado é simples, olhe além do provável, além do possível e se liberte das amarras das impossibilidades. 


Érika Magalhães


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